Anna Bella Geiger ocupa o Pão de Açúcar com nova obra – 16/01/2026 – Ilustrada


Situado a poucos quilômetros de dois aeroportos, na capital de um estado que recebeu cerca de 2 milhões de turistas estrangeiros no ano passado, segundo dados do governo federal, o Pão de Açúcar é um lugar de encontro de cidadãos de geografias do mundo todo —para além de ser um dos principais destinos turísticos do Brasil.

Faz sentido, então, que este cartão postal do Rio de Janeiro passe a abrigar, a partir desta semana, uma obra de arte que lida com a imagem do mundo. “Typus Terra Incognita”, trabalho de Anna Bella Geiger recém-instalado num parque de reserva de mata atlântica no topo do morro do Pão de Açúcar, traz uma representação do globo com os países alongados e gravuras onde vemos um mapa antigo do Brasil e o rio Amazonas.

É a nova obra de uma artista fundamental na arte brasileira e que, aos 92 anos, segue sua pesquisa com mapas. Desde os anos 1970, Geiger questiona as cartografias com as quais estamos acostumados, ciente de que a representação gráfica dos países resulta de interesses ideológicos e políticos, ou seja, do jogo de poder entre as nações. Seus trabalhos foram inovadores à época e ainda soam atuais, num contexto em que o presidente dos Estados Unidos não esconde sua vontade de anexar territórios e redefinir fronteiras.

Não por acaso, para este trabalho a artista conta ter descartado o mapa-múndi de Mercator —o mais comum de todos, ensinado nas escolas e usado pelo Google Maps— e se baseado em outros. “Os continentes estão pingando, deixa alguma coisa da gravidade que puxa eles para baixo”, diz Geiger sobre a nova obra, em conversa no apartamento carioca onde guarda parte de sua produção.

“Typus Terra Incognita”, o trabalho de maior dimensão da carreira da artista, é uma grande escultura ou um objeto agigantado que pesa 700 quilos. Ele foi feito sob encomenda para o Projeto Maravilha, uma iniciativa de Fabio Szwarcwald —ex-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro— com o curador Ulisses Carrilho que prevê a instalação de obras de artistas de renome em locais de acesso público.

Próximo a obra de Geiger há dois trabalhos em aço córten de Carlos Vergara, instalados no ano passado de forma a comporem harmonicamente com a paisagem do parque —um deles reproduz uma pauta musical onde pousam tiês-sangue, um pássaro típico da mata atlântica. “A arte não é uma coisa que precisa estar dentro de um museu, de um espaço seguro”, afirma Szwarcwald, que quer expandir o projeto para além do cartão postal carioca.

Geiger também pôs na obra duas imagens lenticulares na qual vemos a artista caminhando de um lado a outro de uma escadaria, cenas retiradas de um vídeo preto e branco de 1974 realizado em meio às primeiras experimentações com o formato no Brasil. Em “Passagens II’, a artista discutia a exaustão do corpo feminino e o vazio do trabalho repetitivo.

Todos os elementos de “Typus Terra Incognita” —as gravuras, as fotografias, o mapa— aparecem contidos numa grande gaveta com aspecto envelhecido. A artista conta que o formato da gaveta é uma herança da sua série “Fronteiriços”, da década de 1990, quando ela comprava estes contêineres de metal nas lojas de ferro velho nos arredores do Morro da Conceição, no Rio de Janeiro, para abrigarem seus mapas de cera.

Seu interesse por cartografia, diz, data de quando seu marido, o geógrafo Pedro Geiger, passava temporadas em Paris dando aulas na Sorbonne, trabalhando exilado por ser perseguido pela ditadura no Brasil. Da França, ele enviava para ela cadernos de geografia num momento em que sua mulher passava por uma indefinição criativa depois de produzir a série “Viscerais”, em que representava, de maneira abstrata, o corpo humano e seus interiores.

Naqueles anos nasceu o que ela chama de suas “geopoéticas”, um corpo de trabalho com mapas definidor de sua marca na arte brasileira e explorado continuamente pela artista desde então em gravuras, desenhos, serigrafias e bordados, de formas mais ou menos abstratas mas sempre com um olhar crítico à hegemonia do poder. “Meu trabalho é um só”, ela afirma. “A coerência está no andamento e no foco.”

O jornalista viajou a convite do Projeto Maravilha



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