Karim Aïnouz usa família americana para expor patriarcado – 14/02/2026 – Ilustrada


Há menos de um mês, em entrevista à Folha, logo após “Rosebush Pruning” ter sido selecionado para a competição oficial do Festival de Berlim, Karim Aïnouz alertou que seu segundo filme em inglês tinha um roteiro ousado. “Você vai entender quando vir o filme.”

Ousado é uma descrição leve. “Rosebush Pruning”, exibido na Berlinale, neste sábado (14), conta a história de uma família americana autoexilada na Catalunha. Quatro irmãos e o pai, cego e autoritário, não trabalham, não estudam, não fazem nada. São herdeiros, que trocam carinhos esquisitos e se medem por relógios, bolsas, roupas e sapatos de grife.

Até que Jack, o irmão mais velho, pilar do grupo desde a morte da mãe, arranja uma namorada e começa a dar sinais de que vai sair da casa. É o primeiro de uma sucessão de gatilhos, que gradualmente revelam sentimentos, taras e fetiches dos integrantes da família. Em um dos diálogos, a irmã diz aos irmãos que, por ser a única mulher em uma casa cheia de homens, sabe o que os excita, cada um deles, inclusive o pai.

Nesse ponto, começa a fazer sentido a explicação do título (poda de roseira), dada logo no início da história. Rosas precisam de espaço para florir, algo que se obtém cortando os ramos da roseira. Rosas são pessoas, roseiras são famílias. A questão é cortar.

Ir além pode configurar spoiler, mas uma cena, que está no trailer do filme, já sugere muito. Martha, a namorada, papel de Elle Fanning, precisa ter sua figura descrita para o pai, que não enxerga, durante o almoço em que Jack a apresenta à família. O escrutínio vai dos olhos azuis à carteira Balenciaga, passando porém pelo Swatch quebrado no pulso e, ápice do constrangimento, uma discussão sobre de que tamanho seriam seus seios.

Pública também é a inspiração de “Rosebush Pruning”, uma releitura de “Punhos Cerrados”, primeiro filme do cineasta italiano Marco Bellocchio, de 1965.

Vem de lá a família, o caráter disfuncional de seus integrantes, as situações absurdas e a sucessão de violências, mas não o pai. Em uma das primeiras conversas sobre a produção, ainda na época da pandemia, a história de Bellocchio, em que o peso e a cegueira eram da mãe, surgiu na mesa pelo fato de poder ser realizada em uma única locação.

Aïnouz, no entanto, sugeriu ao roteirista Efthymis Filippou que os tempos atuais demandavam uma abordagem centrada no patriarcado. O escritor grego, colaborador frequente de Yorgos Lanthimos, acatou, com boas doses de sarcasmo sobre a sociedade de consumo. “Há muita violência e talvez cenas provocativas nos meus textos, só que elas estão lá porque, quando tento descrever as pessoas e a vida, não dá para evitá-las”, disse o roteirista indicado ao Oscar por “O Lagosta”.

“Não se trata de chocar os outros, mas de descrever a humanidade.”

Até mais do que a história, a experimentação de Bellocchio, então em sua estreia no cinema, chamou a atenção de Aïnouz. “Uma coisa que me atraiu foi justamente essa sensação de entusiasmo que se tem no primeiro filme”, disse o cineasta cearense, neste sábado, em entrevista coletiva concedida com parte de seu elenco.

Jamie Bell, que interpreta Jack, falou um pouco da experimentação do próprio Aïnouz durante duas incomuns semanas de ensaio que tiveram na locação, na Espanha, antes de as gravações começarem. “Daí, no primeiro dia de filmagens, ele chegou para a gente e disse: ‘Sabe tudo aquilo que ensaiamos? Não façam nada daquilo’.”

“Um brasileiro olhando para uma família americana, acho que é isso o que eu trouxe para a história”, disse Aïnouz, festejando que o cinema atual, Oscar incluído, vem se abrindo, nos últimos, para outros pontos de vista, que não o exclusivamente falado em inglês. “Se esse filme fosse feito por um diretor americano, ele seria muito, muito diferente.”

No mínimo não teria a breve e sugestiva referência brasileira no desfile de peças de grife que aparecem no filme, a maioria vintage.

Um dos americanos na mesa de entrevista, Tracy Letts afirmou que “Rosebush Pruning” era um filme com uma “mensagem a transmitir, graças a um belo roteiro, a um belo elenco e a um belo diretor”. O ator e dramaturgo havia sido provocado a falar sobre o impacto da situação política dos EUA sob Donald Trump sobre o cinema e a produção cultural.

“Uma das coisas que este filme aborda, creio, é que essa extrema disparidade de riqueza gera mau comportamento e, na verdade, provavelmente o fascismo. Não acho que haja como contornar isso como artista”, disse o Letts, que divertiu os jornalistas presentes à entrevista ao contar que tinha sido escalado para encarnar o próximo James Bond.

A tirada surgiu depois de Callum Turner, intérprete de Ed, irmão que narra a história de “Rosebush Pruning”, ter sido indagado sobre as especulações da mídia britânica que o apontam como o escolhido para assumir a franquia. Ele recusou fazer qualquer comentário.

No embalo, Aïnouz pediu que “ficasse registrado” que um de seus maiores sonhos seria dirigir um filme de 007. Letts emendou de novo para risada geral: “Karim está dirigindo meu James Bond”.



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