Nenhum animal hoje pode ser rotulado como primitivo – 11/02/2026 – Ciência


Nós humanos há muito nos consideramos o ápice da evolução. Pessoas rotulam outras espécies como “primitivas” ou “antigas” e usam termos como animais “superiores” e “inferiores”.

Essa perspectiva antropocêntrica se consolidou em 1866, quando o cientista alemão Ernst Haeckel desenhou uma das primeiras árvores da vida. Ele colocou o “homem”, claramente identificado, no topo. Essa ilustração ajudou a estabelecer a visão popular de que somos o objetivo final da evolução.

A biologia evolutiva moderna e a genômica desmentem essa perspectiva falha, mostrando que não há hierarquia na evolução. Todas as espécies vivas hoje, de chimpanzés a bactérias, são primas que têm linhagens igualmente longas, em vez de ancestrais ou descendentes.

Infelizmente, essas noções ultrapassadas continuam prevalecendo em revistas científicas e no jornalismo científico. Em meu novo livro, “Understanding the Tree of Life” (entendendo a árvore da vida), exploro por que é fundamentalmente enganoso considerar qualquer espécie atual como primitiva, antiga ou simples. Como biólogo evolutivo, ofereço uma visão alternativa que enfatiza a história complexa, não hierárquica e interconectada da evolução.

Não primitivas, apenas diferentes

Os mamíferos ovíparos, os monotremados, são frequentemente rotulados como os mamíferos vivos mais “primitivos”. Essa categoria inclui o ornitorrinco e quatro espécies de equidnas. De fato, a oviparidade é uma característica antiga compartilhada com os répteis.

Mas os ornitorrincos também têm muitas adaptações recentes únicas que os tornam bem adequados ao seu estilo de vida: eles têm pés palmados para nadar e um bico com eletrorreceptores especializados que detectam presas na lama. Os machos têm esporões com veneno que podem usar para se defender de rivais. Se você olhar pela perspectiva do ornitorrinco, eles são o auge da evolução para seu nicho ecológico específico.

Os equidnas podem parecer primitivos, especialmente porque não têm uma capacidade que os humanos têm: dar à luz filhotes vivos. No entanto, eles possuem muitas características extraordinárias que os humanos não têm. Os equidnas são conhecidos por sua cobertura externa de espinhos protetores. Eles também têm garras poderosas para cavar, um bico sensível e uma língua longa e pegajosa, que usam para procurar formigas e cupins. Em uma competição direta para procurar presas em um cupinzeiro, um equidna facilmente superaria qualquer humano.

Outros mamíferos nativos da Austrália também aparecem nas listas de “mamíferos primitivos”, como muitas espécies de marsupiais –mamíferos com bolsa, incluindo cangurus, coalas e wombats. Essas espécies geralmente dão à luz filhotes pequenos e minimamente desenvolvidos, que então se mudam para a bolsa da mãe, onde completam o desenvolvimento. O desenvolvimento na bolsa pode parecer inferior ao modo humano, mas tem suas vantagens. Por exemplo, os cangurus podem criar filhotes em três estágios de desenvolvimento diferentes simultaneamente.

A aparência da árvore evolutiva depende do foco

Marsupiais, como gambás, ou monotremados, como o ornitorrinco, são frequentemente mostrados na parte inferior ou no lado esquerdo de uma árvore evolutiva. Mas isso não significa que eles sejam mais antigos, mais primitivos ou menos evoluídos.

As árvores evolutivas —o que os cientistas chamam de filogenias— mostram relações de parentesco. Assim como seu primo de segundo ou terceiro grau não é mais primitivo do que você, é enganoso pensar que um coala ou um equidna são primitivos em razão de onde são representados nessas árvores.

Quando cientistas e jornalistas escolhem quais espécies incluir nas árvores evolutivas em suas publicações, isso pode influenciar a forma como o público percebe essas espécies. Mas as espécies mostradas na parte inferior da página não são “inferiores” em alguma escala evolutiva.

Em vez disso, elas são colocadas ali porque o foco de muitas dessas árvores é em mamíferos placentários, como humanos, outros primatas, carnívoros, roedores e assim por diante. Quando o foco está em mamíferos placentários, faz sentido incluir uma ou duas espécies de marsupiais como comparação para referência.

Em contrapartida, em uma árvore focada em marsupiais, um ou dois mamíferos placentários poderiam ser incluídos na parte inferior da página para comparação.

É importante compreender a árvore da vida

Ver os seres humanos como o objetivo da evolução leva a um mal-entendido de todo o processo evolutivo. Como a evolução é a base conceitual de toda a biologia, essa perspectiva falha pode prejudicar toda a ciência biológica e biomédica.

Dominar uma compreensão moderna das árvores evolutivas é crucial para os avanços em campos que vão desde o comportamento animal e a fisiologia até a conservação e a biomedicina. Por exemplo, como os macacos rhesus são muito mais próximos de nós do que os capuchinhos, eles são geralmente melhores sujeitos para testes preliminares de vacinas humanas. Os gambás, incorretamente considerados primitivos, são uma ótima espécie para fornecer uma estrutura mais ampla para estudos de neurobiologia e envelhecimento, porque são parentes distantes nossos, e não porque são inferiores ou mais ancestrais.

Compreender a profunda realidade de que os seres humanos não são o auge da evolução, mas um ramo entre muitos, é fundamental para toda a biologia moderna. Compreender a árvore da vida é essencial para abraçar plenamente o status moderno comum a todos os animais, dos ornitorrincos às pessoas.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original



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