Uma mulher à beira de um colapso mental por cuidar sozinha de uma filha doente. Quem fica por aí e não emburaca nos tantos orifícios e fendas e cavidades do filme “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” perde o convite principal feito pela diretora Mary Bronstein: “Vamos assumir que, na maternidade, a fantasia e a realidade estão borradas?”. E aqui vai meu alerta de spoiler na crônica.
Saí do filme com a mente frenética: buraco no teto, buraco da sonda, umbigo, fundo do poço, vagina, ânus, traumas enterrados no buraco, buraco de fome no estômago, ferida narcísica “não sou a mãe perfeita, não tenho a filha que eu sonhei” e a falta de buraco por onde uma criança poderia sair e livrar a mãe desse corpo duplo.
Se eu tivesse pernas… O bebê dentro da barriga chuta, porém, a mãe não pode chutá-lo. O corpo desmembrado pela mente colapsada. A mãe solo que chutaria todo o ambiente insuficiente e patriarcal que a cerca, mas esses “homens” (marido, terapeuta, empreiteiro) nem aparecem para receber o contra-ataque da violência que causam. O corpo da criança não aparece porque está amalgamado ao da mãe superprotetora (e, por isso, nem desejar nem se alimentar sozinha ela pode?).
A criança da história se impõe um limite: a mãe é maleável ao mesmo tempo que a comida é nojenta porque é mole. A mãe se empanturra de doces, pizza, álcool e droga. Ela precisa de um limite para a boca.
Pouco antes de minha filha nascer, tive a sorte de ler alguns livros de Winnicott, então não me senti tão maluca quando, já com ela em meus braços, me perguntava se a barriga que doía era a dela ou a minha. De quem era o choro que irrompia com tanta força? Estar regredida era fundamental para que eu me comunicasse com o bebê. A frase mais popular de Winnicott é aquela sobre ser uma mãe suficientemente boa; contudo, quanto mais o leio, mais reflito que posso ficar suficientemente tranquila em relação a estar suficientemente alucinada.
Minha filha já tem oito anos e até hoje não estou curada da insanidade que é reviver a minha infância através da infância dela. Ontem mesmo, para ter certeza de que ela havia dormido com seu aparelho móvel, eu passei a língua nos meus dentes.
Um amigo psiquiatra ficou incomodado com a forma como os profissionais da saúde foram representados no filme, e concordei. Porém, a minha experiência na gestação foi com uma pediatra que me disse que eu não estava apta a amamentar, um terapeuta que chamava a gravidez de grotesca e uma obstetra que reclamou comigo durante minhas contrações: “Me deixa dormir”.
“There is a woman missing” é a frase dita no longa para se referir a uma puérpera psicótica, que larga seu filho e desaparece. Tem a mãe, a esposa, a cumpridora de papéis perante a sociedade, mas onde foram parar o desejo, o sexo, a juventude?
Na saída do cinema, notei que as pessoas estavam extasiadas pela viagem ou indignadas pela perda de tempo. Quem topa o espelho diante da protagonista Linda, atuação magnífica de Rose Byrne, e renuncia à pose, à aparência e até mesmo à decência de um corpo asseado, consegue passar pela angústia claustrofóbica da obra e, por fim, se atirar com ela ao mar revolto. Não era para morrer, era para que a sua natureza mais profunda a sacudisse.
Para aqueles que preferirem ter pernas a ter subjetividades (e asas), resta chutar para longe todas as mil camadas de tudo que está sendo dito nesse grande filme.